|
Sete da noite, a turma no chopinho. É comum o homem dizer: “vou prá casa porque tenho que colocar o arroz no fogo!”?
Marcos Ribeiro*
É mais fácil desintegrar um átomo de que um preconceito.
Albert Einstein
As vezes eu fico me perguntando: será as relações estão mesmo iguais? Que homens e mulheres conseguiram construir os mesmos direitos e, claro, também os deveres?
Talvez temos que começar na infância para entender melhor essa história. Se é de pequeno que se torce o pepino (eu nunca etendi direito o que quer dizer isso), é na infância, também, que os pais educam seus filhos cheios de vantagens para o garoto, em detrimento da menina.
Quando começa a expectativa de pai e mãe em relação ao papel sexual do filho, aquele papel que reproduz os estereótipos sexuais da nossa sociedade, onde o homem é sempre visto como mais forte e menos emotivo e a mulher como mais sensível?
Logo que nasce, Marcos!
Não! Na verdade, quando o casal ainda está “grávido”, desde o enxoval já começa a reprodução do que vai ser esperado dessa criança ao nascer.
Quando sabem que é menino, as roupinhas serão em azul. Meninas, no tom rosa. Quando não sabem o sexo, certamente o enxoval será Brasil: verdinho e amarelinho.
Quando nasce a criança, bichinhos de pelúcia ou sapatilhas de bailarina ficam pendurados na porta indicando que ali nasceu uma princesinha, e chuteiras e camisas do time de futebol do papai indicam que naquele quarto tem um “herói”.
É claro que meninos e meninas são diferentes. Mas essas diferenças não devem se traduzir em desigualdades. No entanto, no dia-a-dia, é isso que acontece.
Se ficarmos atentos à linguagem com que pai e mãe se referem aos filhos, vamos ver que as meninas geralmente são definidas com diminutivo: “delicadinhas”, “princesinhas”, “fofinhas”, “gracinhas”; e os meninos quase sempre no aumentativo: “filhão”, “lindão”, “garotão”, “fortão”.
Mesmo com o avanço da ciência e da tecnologia, com o computador, por exemplo, sendo uma realidade para ambos os sexos, ainda hoje os jogos e brincadeiras são uma reprodução dos estereótipos sexuais:
Meninas brincam de casinha, comidinha, boneca e “cuidar de casa”.
Vamos anlaisar: As brincadeiras das meninas as “colocam” dentro de casa, um pouco do que é esperado delas quando crescerem, serem mães e donas de casa.
Meninos brincam de bola de gude, pipa (que tem o nome de papagaio em algumas regiões) e futebol.
Analisando: As brincadeiras dos meninos os empurram para a rua, reproduzindo o que se deseja do homem quando crescer: ir para a rua em busca do sustento da família.
O que, na verdade, a sociedade espera? Que a mulher fique em casa e o homem na rua.
Um dos conflitos do casamento está justamente porque, ao casar, a mulher espera que o homem mude. E ele não muda. No entanto, ele espera que sua mulher NÃO MUDE, mas ela muda.
Mesmo com a crise econômica e a realização profissional da mulher, o pensamento de boa parte de nossa cultura ainda é machista.
Reforçar a idéia de que os meninos têm de ser agressivos, competitivos e nada emotivos, certamente é um “treinamento” (muito ruim) para formar namorados ou maridos que acreditam que, pelo fato de serem homens, têm direitos sobre a mulher. Essa é, aliás, uma das “raízes” da violência contra a mulher.
Da mesma maneira que, educar as meninas para serem passivas, abaixarem a cabeça para o namorado ou marido; ou, não precisa ir tão longe, serem sempre carinhosas e boazinhas (no sentido de submissão), é um caminho para formar moças inseguras, com dificuldade de dizer não e acreditando que o homem tem mais direitos que a mulher.
Com as conquistas da mulher em todos os espaços da sociedade, com o Congresso Nacional revendo o Código Civil para eliminar toda e qualquer discriminação de direitos da mulher, e com o homem revendo o seu papel, não faz sentido pai e mãe continuarem a reproduzir essa educação discriminatória na criação dos seus filhos.
Essas conquistas das mulheres a que me referi relacionam-se à entrada no mercado de trabalho, à participação política, ao direito ao prazer, à luta por tratamento igualitário e pela exigência de que o homem não fique só perguntando “o que tem nessa casa pra jantar hoje?”, mas divida as tarefas domésticas. E também faça o jantar. Se preocupe em ir para a casa colocar arroz no fogo ou a roupa de escola das crianças na máquina, porque elas tem aula no dia seguinte.
Só que, enquanto há homens sensíveis a essa questão, existem muitos outros que não acreditam que são igualmente responsáveis pelo trabalho doméstico e pela criação dos filhos. Transformar essa realidade é uma das múltiplas tarefas de pai e mãe cotidianamente na educação dos filhos. É assim que mudamos essa sociedade desigual.
• Algumas dicas para auxiliar nesse processo de mudança:
- Eduque seus filhos com igualdade: meninos e meninas podem forrar a cama, ajudar a arrumar a mesa no almoço e nas tarefas domésticas.
Lembrando: colocar sua filha para arrumar a cama dela e também do irmãozinho, por ela ser mulher, não só é injusto, como estará contribuindo para a desigualdade.
- Dar mais autonomia aos garotos e ter mais vigilância com as meninas: significa que você está educando seu filho com mais vantagens do que o faz com sua filha.
Lembrando: ambos devem ser educados para ter autonomia e, com isso, mais segurança em suas escolhas. Além disso, ter a vigilância dos pais independente do sexo, porque a proteção cabe aos dois e será importante para o desenvolvimento tanto da menina como do menino.
- Não obrigue sua filha a brincar de casinha. Ela pode ter preferência por bola e carrinho, e continuar tendo uma identidade feminina. E seu filho, preferir a brincadeira com boneca, sem perder os sentimentos masculinos.
Lembrando: seu filho não tem de ser um craque na bola para ser homem. Nem sua filha ser fã de maquiagem para ser mulher.
__________________
- Marcos Ribeiro é sexólogo e coordenador do Centro de Orientação e Educação Sexual (CORES).
Mais sobre o Marcos, acesse: www.marcosribeiro.com.br
Contato: marcosribeiro@marcosribeiro.com.br
Veja outros temas que foram abordados na coluna do Sexólogo e Escritor:
- A cegonha se aposentou e o bicho-papão se mandou. E agora, como falar sobre sexo com as crianças?
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Marcos Ribeiro - Sexólogo. Consultor em Sexualidade do Ministério da Saúde, Fundação Roberto Marinho, entre outras instituições. Coordenador Geral do Centro de Orientação e Educação Sexual (CORES) e autor de livros sobre sexualidade.
Saiba mais acessando:
www.marcosribeiro.com.br
www.cores.org.br
|